Uma
questão que ainda é considerada e debatida nos meios religiosos é a
incompatibilidade entre evolução darwiniana, do criacionismo, ou mesmo a do
Design Inteligente (DI), e a criação de tudo que existe tal qual está descrito
nas Sagradas Escrituras. Diante desses fatores fica a questão em se negar ou
não o Criador dos cristãos e dos judeus. Mas, será que é necessário chegar a tal
ponto? Será que a única alternativa para o ser humano é negar uma ou outra forma?
A
questão do evolucionismo veio a ser bem conhecida e debatida a partir do século
XIX, de um lado promovido pela metafísica alemã e, por outro, por força de
Spencer e Darwin. Já nos meios religiosos não se abre mão da criação tal qual
como está escrito, pois ali se acredita estar exatamente o mecanismo usado pelo
Criador. Mas, ocorre que as Sagradas Escrituras não têm como objetivo explicar de
forma literal as questões do Universo, muito menos que sua leitura seja apoio
para conhecimentos científicos.
Umas
das grandes contribuições de João Calvino para o pensamento científico foi o
seu combate à literalidade bíblica; daí um de seus mais importantes estudos
exegéticos foi sobre o conceito de acomodação,
o qual Deus ajustou sua palavra revelada às capacidades da mente e do coração
humanos. A postura de Calvino frente aos
relatos da criação em Gênesis é que eles fazem parte desta chamada acomodação
às habilidades cognitivas dos primeiros ouvintes e leitores[1].
Assim,
os relatos bíblicos contêm um sentido transcendente e de valor permanente. É
preciso dizer também que tais relatos concentram-se na Terra, na história
humana, bem como seu destino eterno num relacionamento com o Criador de todas
as coisas.
Contudo,
para aqueles que vivem sua vida religiosa e ao mesmo tempo gostam da ciência e acompanham
as produções acadêmicas podem se deparar com questões que envolvem o criacionismo
e o evolucionismo; geralmente os debates se polarizam entre essas duas
vertentes, porém, pouco se fala numa outra possibilidade criadora, uma alternativa
possível a qual também deve ser considerada, estudada e igualmente debatida nos
meios religiosos e científicos, essa linha é conhecida como Evolução Teísta, abreviada no inglês
como “TE” (Theistic Evolution).
A
ciência não é uma adversária as questões da fé embora muitos queiram que seja.
Fé e ciência, ciência e fé, podem caminhar em harmonia desde que ambas se
aproximem sincera e respeitosamente uma da outra. Saber que há uma força
criadora de todas as coisas e essa força é conhecida ou denominada como Deus
não anula de forma alguma o trabalho cientifico que o ser humano desenvolve ao
longo dos tempos. E, à medida que as pesquisas científicas avançam, ganhando ao
longo dos tempos novas ferramentas, ela tem proporcionado novas descobertas,
que por sua vez, nos permite aprimorar nossa compreensão de mundo, e, por que
não, nossa compreensão de Deus.
Para
se conceber a criação a Evolução Teísta “TE”,
segue como premissas praticamente seis pontos, os quais seguem na sequência.
Primeiro: o universo surgiu do nada, tal como
se concebe, num único momento, isso há aproximadamente 14 ou 15 bilhões de anos;
embora ainda haja pesquisas neste campo que pode nos apontar uma idade ainda
maior. Aguardemos.
Segundo: dentre grandes improbabilidades,
adversidades e hostilidades vê-se que a criação da vida parece ter ocorrido por
meio de um ajustamento das propriedades do universo.
Terceiro: o exato mecanismo da origem da vida
na Terra ainda é desconhecido para todos, pois com o surgimento da vida o
processo de evolução e seleção natural (e que pode ser divino), permitiu o
desenvolvimento da diversidade biológica e da complexidade, isso por um período
de espaço de tempo bem vasto.
Quarto: assim que a evolução seguiu seu
roteiro, ou tomou seu rumo, não houve mais a necessidade alguma de uma
intervenção sobrenatural.
Quinto: os seres humanos também faz parte
desse processo, e compartilham um ancestral comum com os grandes símios, porém,
descartando a progressão linear, porque
hoje se sabe que essa ideia é errônea. Essa evolução ocorreu através do tempo
em infinitas ramificações[2].
Sexto: os humanos são exclusivos em
características[3]
e desafiam questões puramente evolutivas indicando uma natureza que inclui a
existência de uma Lei Moral, com o conhecimento do certo e do errado; e uma
busca que caracteriza todas as culturas, de um Eterno Criador.
Essas
seis premissas caminham num processo lógico e intelectualmente satisfatório. Crer
no Criador Eterno também é conciliar
a fé ao intelecto. Ele não se limita ao tempo e ao espaço. O universo que
conhecemos foi estabelecido e é regido por leis naturais que percorrem por
caminhos distintos da evolução para micróbios, plantas e animais.
“O mais extraordinário é que ele
escolheu, propositadamente, o mesmo mecanismo para originar criaturas especiais
que teriam inteligência, conhecimento de certo e errado, livre-arbítrio e
desejo de afinidade com Ele. Deus também sabia que esses seres, ao fim,
optariam por desobedecer à Lei Moral.”. (Collins, 2007, p. 207).
Só
para ter uma ideia o universo todo é formado de 75% de hidrogênio, 24% de hélio
e 1% dos demais elementos, nestes 1% estão todas as coisas que conhecemos as
quais podemos ver e tocar, nestes 1% estamos nós, seres humanos, que diga-se de
passagem, totalmente dependente de oxigênio, um elemento oxidante, porém, o
qual sustenta a nossa existência.
Diante
do que abordamos até aqui, como fica o primeiro capítulo de Gênesis, das
Sagradas Escrituras, tanto do judaísmo como do cristianismo, bem como sua ordem
interna dos relatos ali contidos e a visão do conhecimento cientifico que temos
hoje? Para responder a isso, seguem os
fatos relatados pela ordem:
Gênesis
capítulo primeiro, versículos primeiro ao trinta e um, passo a passo
Gênesis
1:1 “No princípio, criou Deus os céus e a
terra.”. O primeiro verso bíblico diz respeito ao princípio da
criação, mesmo que na língua hebraica antiga não haja uma palavra correspondente
a universo, a ideia está contida. No princípio, criou (do hebraico o verbo é: “bara”), do nada, os céus e terra, ou seja, tudo que há veio à existência por
meio de uma ação divina. Acrescenta-se que segundo o pensamento semítico esta intervenção divina se dá num mundo em que o conjunto de água e terra não
permite qualquer possibilidade para a vida, assim, como Criador, Deus torna a
vida possível no mundo conhecido[4]. Isso vai além da chamada criação
especial, porque a divina criação trabalha com a constante das leis que
regem a manutenção e a estrutura do universo. Mais adiante iremos aprofundar
essa ação divina por meio de uma compreensão contemporânea de cosmo visão.
Gênesis
1:2 “A terra, porém, estava sem forma e
vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por
sobre as águas.”. O abismo é um sinal de caos, as águas correspondem
a tudo que existia. Nisto tudo está a presença do próprio Criador.
Pois
bem, até aqui o autor busca montar um cenário a partir da terra, seu ponto de
partida, obviamente, porque o autor está contido numa perspectiva de
entendimento de seu tempo, pois não há sentido que o seu olhar esteja no
sentido inverso, ou seja, do universo para a terra, uma vez que sua visão de
mundo é a partir de onde se vive a vida. Contudo, já a partir dos versículos seguintes é
possível enxergar no relato do autor de Gênesis o desenvolvimento da criação
como um todo inclusive a evolução do universo. É a partir de então que
passaremos à formação do universo numa perspectiva de ordem sem qualquer necessidade em alterá-la, tanto do
ponto de vista bíblico como do próprio desenvolvimento do universo segundo o
que é conhecido nos meios acadêmicos/científicos. Vamos então para esses
passos.
Gênesis
1:3-5 “Disse Deus: Haja luz; e houve luz. E
viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou
Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.”.
Provavelmente isso corresponde entre 15 bilhões de anos e 7,7 bilhões de anos. Sabemos que o universo teve início num
único momento, largamente difundido como Big
Bang, a “grande explosão”. Antes disso, o universo não existia, nem mesmo o
espaço vazio e o tempo. O fato é que o universo começou como um ponto de plasma
de pura energia sem dimensões, incrivelmente quente numa temperatura de
trilhões de graus, com uma densidade infinita e força gravitacional que não
deixava escapar nada, inclusive luz. Esse ponto de pura energia se esfiou e,
após o seu esfriamento deu-se sua expansão a uma velocidade de centenas de
milhares de quilômetros por hora até que a força gravitacional fosse reduzida
suficientemente para permitir que a radiação eletromagnética escapasse de
dentro dela originando então a luz “Disse Deus:
Haja luz; e houve luz”. Momento então em que surge o tempo e o espaço.
“Depois disso, é possível fazer
suposições sobre os eventos que precisariam ter acontecido para originar o
universo que vemos hoje, como a destruição de matéria e antimatéria, a formação
do núcleo atômico estável e, em definitivo, a formação dos átomos,
primeiramente de hidrogênio, deutério e hélio.”. (Collins, 2007, p. 73)
Enquanto
o universo se expandia a temperatura caia, quarks, prótons, nêutrons, elétrons,
tempo e espaço foram criados. O núcleo e os átomos começaram a se formar e mais
a diante a matéria começou a se ajuntar em galáxias movidas pela força
gravitacional, adquirindo o movimento de rotação. Neste ponto, se pudéssemos
olhar para o nosso planeta veríamos que sua existência se daria apenas em forma
de poeira estelar, somente
bem mais tarde é que se solidificaria para formar o que conhecemos como o nosso
planeta, isso se deu com o passar dos anos à medida em que a Terra foi
resfriando por meio da baixa temperatura do universo.
Por fim, diz o autor, que o Criador denominou a luz como o dia (do hebraico: “yom”) e as trevas como noite. A palavra yom pode também indicar um período de claridade, em distinção a um período de escuridão. Evidentemente não podemos se prender a ideia de que a palavra dia se trata de um dia comum conforme conceituamos hoje, isso porque o espírito do autor não foi o de dar ênfase ao conceito do termo “dia”, antes, seu objetivo foi usar a palavra para dar uma base à estrutura da narrativa da criação. E nisto ele foi bem sucedido.
Por fim, diz o autor, que o Criador denominou a luz como o dia (do hebraico: “yom”) e as trevas como noite. A palavra yom pode também indicar um período de claridade, em distinção a um período de escuridão. Evidentemente não podemos se prender a ideia de que a palavra dia se trata de um dia comum conforme conceituamos hoje, isso porque o espírito do autor não foi o de dar ênfase ao conceito do termo “dia”, antes, seu objetivo foi usar a palavra para dar uma base à estrutura da narrativa da criação. E nisto ele foi bem sucedido.
Gênesis 1:6-8 “E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e
separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre
as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez. E
chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.”. Após o agrupamento da matéria em galáxias,
houve agrupamentos locais de hidrogênio e hélio, aumentando de densidade e de temperatura,
depois disso veio a fusão nuclear. Por que essa informação científica é tão importante?
Porque, por meio desse processo quatro núcleos de hidrogênio fundiu-se para
formar toda a energia que existe nos núcleos de hélio, o que veio a gerar a
mais importante fonte de combustível para as estrelas. Sendo assim, uma das
galáxias que veio a ser formada neste processo foi a nossa Via Láctea[5].
O nosso sistema solar teve seu início por
meio de uma grandiosa nuvem de poeira e gás que foram comprimidas pelas forças
gravitacionais. Quanto ao nosso Sol, se sabe que ele é uma estrela de segunda
ou terceira geração (também conhecida como de segunda ou terceira grandeza). Mas,
o que isso significa? Significa que sua formação deve ter ocorrido por meio de
um novo agrupamento local, uma nebulosa somada à explosão de uma estrela morta,
enfim, as pesquisas científicas se aprofundam mais nesta questão. Cálculos
indicam que isso ocorreu há cerca de 5 bilhões de anos atrás.
Enquanto esse evento ocorria alguns dos elementos
pesados que estavam nas proximidades escaparam e não se uniram à nova estrela, que
no caso é o nosso Sol, antes, o que ocorreu foi que agruparam-se formando planetas
a passaram a girar ao seu redor.
Gênesis 1:9-13 “Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos
céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez. À porção seca
chamou Deus Terra e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era
bom. E disse: Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores
frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele,
sobre a terra. E assim se fez. A terra, pois, produziu relva, ervas que davam
semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuja semente estava
nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã,
o terceiro dia.” A princípio o nosso planeta estava longe de
abrigar qualquer tipo de vida, pois começou muito quente e era constantemente
bombardeado por colisões de asteroides e meteoritos gigantes. Estamos falando
de cerca de 4,5 bilhões de anos. Portanto, por 500 milhões de anos o nosso
planeta foi um lugar totalmente inóspito. Posteriormente a esse período a Terra
passou a desenvolver uma atmosfera mais propícia a gerar condições de amparar
formas de vida, isso por volta de 4 bilhões de anos atrás. Em outras palavras,
é daí em diante que o nosso planeta reuniu condições para possuir tal potencial.
Entre 3,7 bilhões e 1,7 bilhões de anos atrás
o planeta passou por um esfriado, daí iniciou seu processo de formação de água
em seu estado líquido. Daí as primeiras formas de vida microbianas, organismos
unicelulares que armazenavam informações, talvez pelo DNA, o fato é que podiam
se auto-reproduzir, além da capacidade de evoluir em tipos diferentes. Também
surgem bactérias fotossintéticas, ou arqueobactérias[6],
enfim, o que eu quero focar é que são primitivas formas de vidas.
Gênesis 1:14-19 “Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos
céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais,
para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus,
para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o
maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as
estrelas. E os colocou no firmamento dos céus para alumiarem a terra, para
governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu
Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã, o quarto dia.”. Não
se pode entender que o Sol e a Lua foram criados exatamente neste ponto, pois
sabemos que até chegarmos aqui eles já existiam. Aqui se trata de eventos
ocorridos entre 1,7 bilhões e 750 milhões de anos atrás. Na primeira parte
desse período a atmosfera do nosso planeta seria nebulosa, ou seja, ela não
permitia de forma alguma a passagem de luz. Mas, com o aumento da concentração
de oxigênio nossa atmosfera começou a se tornar translúcida, daí em diante
passou a permitir a passagem da luz. Sendo assim, o Sol, a Lua e as estrelas
puderam ser observadas a partir da perspectiva da Terra pela primeira vez.
Gênesis 1:20-23 “Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de
seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Criou,
pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam,
os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo
as suas espécies. E viu Deus que isso era bom. E Deus os abençoou, dizendo:
Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se
multipliquem as aves. Houve tarde e manhã, o quinto dia.” Este
quinto dia está situado por volta de 750 milhões e 250 milhões de anos atrás,
período em que inicialmente a vida marinha dominava em nosso planeta. Contudo, após
a Era Cambriana a situação mudou
novamente.
A explosão do cambriano, que é foco das
pesquisas de Stephen Jay Gould em seu livro “Vida Maravilhosa”[7],
se deu por volta de 530 milhões de anos, quando todas as espécies de animais
terrestres surgiram e, por volta de 400 milhões de anos atrás as plantas
passaram a existir também em terra firme, e logo na sequência, uns 30 milhões
de anos depois, sabe-se que alguns animais passaram a se deslocar para a terra.
Gênesis 1:24-31 “Disse também Deus: Produza a terra seres viventes,
conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos,
segundo a sua espécie. E assim se fez. E fez Deus os animais selváticos,
segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos
os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. Também
disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha
ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais
domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela
terra. Criou
Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os
criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei
a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e
sobre todo animal que rasteja pela terra. E disse Deus ainda: Eis que vos tenho
dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e
todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento.
E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis
da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento.
E assim se fez. Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve
tarde e manhã, o sexto dia.”. Até aqui já percebemos que de um
versículo para o outro encontramos espaços de milhões e milhões de anos. O
intuito do autor do livro não é especificar como ocorreram estas etapas, mas
informar que o Eterno Criador é responsável por elas.
Neste ponto encontra-se o ápice da criação, ou
seja, temos a formação do ser humano, como o intuito de ser ele o mais próximo
do próprio Criador, com isso vem também a incumbência de ter ele um
relacionamento igualmente direto com todas as demais obras da criação, já que
tudo está biologicamente interligado. Então, constatamos que os versículos 24 e
25 do capítulo primeiro de Gênesis nos mostram que antes do ser humano existir,
as mais diversas espécies animais, segundo as suas formas, já existiam e consequentemente
seguiam os seus caminhos de forma independente de qualquer interferência humana.
Isso porque até aqui o ser humano ainda não estava neste cenário e sim animais ferozes
ou menos ferozes, ou nada feroz, dependendo das características, descritos
entre selváticos e domésticos, répteis pequenos e grandes, enfim, todos eles já
estavam lá.
Dito isso, é posteriormente a este ponto que podemos
avançar para uma próxima etapa, aquela que culmina para o ápice da criação.
Para isso caminhemos juntos ao ponto que podemos denominar de “A jornada humana”.
A
jornada humana
Por volta de 230 milhões de anos surgiram os
conhecidos dinossauros, e foram dominantes no planeta por muito tempo, porém, a
Era desses animais teve um fim por
volta de 65 milhões de anos, sendo que neste tempo, como se sabe até o presente
momento, os seres humanos jamais tiveram contato com os dinossauros; como
também é testificado pelo professor Claudio
da Cunha, que diz:
“Os dinossauros foram extintos há 65
milhões de anos e os hominídeos nunca tiveram contato com eles, embora tenham
tido contato, de alguma forma, com mamutes, preguiças gigantes e
tigres-dente-de-sabre. Grande parte da megafauna de mamíferos foi extinta na
última grande glaciação, que, provavelmente, quase extinguiu também os poucos
humanos que sobreviveram heroicamente com as principais ferramentas
disponíveis: a inteligência e o comportamento social colaborativo.” (Cunha,
2011, p. 223).
Já quanto ao fim, ou a extinção dos próprios dinossauros
não há uma teoria definitiva sobre o que de fato ocorreu com eles, somente sabemos
que foi de forma repentina e catastrófica. A saber, especula-se, de forma
plausível, que esse fim se deu provavelmente por meio da queda de um grande asteroide
na região onde hoje é a Península de lucatã, no México, e que esse evento pelas
suas proporções e dimensão permitiu a extinção desses grandes répteis e a
ascensão dos mamíferos.
Até
este momento podemos perceber que não há conflito algum com a sequência da
narrativa do livro bíblico de Gênesis, pois observamos que o ser humano está na última etapa
da criação, etapa essa onde podemos colocar os primeiros hominídeos (linhagem
humana).
Embora
os seres humanos modernos, por meio dos estudos da variação humana e registro
fóssil, tenham sua origem por volta de 100 mil anos atrás, os primeiros
hominídeos datam de um tempo muito mais anterior, 12
milhões de anos.
E
é importante dizer também que por volta de 5
milhões de anos, acredita-se, por análise molecular, que houve uma
significativa ruptura genética entre nossa linhagem e a linhagem dos grandes
símios. Isso porque, ao se comparar os
cariótipos dos humanos aos dos símios, vemos que os seres humanos têm 46
cromossomos e os símios 48 cromossomos, sendo que deles 18 cromossomos são
praticamente idênticos. O que nos evidencia apenas
a correta observação de que em nossas origens há um ancestral comum o qual foi tomando
outros rumos por consequência das sucessivas rupturas na cadeia genética que
ocorre com toda a criação.
Figura 1
Fonte:
Yunis e Prakash
(Comparação dos cariótipos, da esquerda
para a direita: Homem; Chimpanzé; Gorila e Orangotango)
Infelizmente,
é exatamente por conta desse fato de aproximação que se faz a equivocada ideia
de uma evolução linear entre a espécie humana e os
símeos, chamada como progressão
linear, isso a fim de defender uma
ideologia ou mesmo implementar e incutir uma determinada cultura de pensamento de ascendência humana em relação aos símios propositadamente
tendenciosa e mal intencionada evidentemente para
favorecimento próprio de um grupo específico
de pessoas as quais não vem ao caso debruçar nesta questão
no momento.
Figura
2
A imagem acima traz a famosa ideia de progressão direta[8], a qual é absolutamente falsa
porque ao longo desses milhões de anos ocorreram diversas rupturas na árvore da
vida, estabelecendo diferentes graus entre as espécies, cada uma com sua
sequência de DNA, assim nos deixando mais ou menos próximos pelo fator
sequencial e nada mais. O que só indica uma origem comum a todos os mamíferos[9]. O fato é que a partir
dessas rupturas cada espécie foi seguindo seus caminhos.
Quanto
aos seres humanos, podemos dizer que a nossa existência se dá por meio do
caminho percorrido pelas mais diversas espécies de hominídeos. Inclusive, em
determinados períodos da história alguns hominídeos chegaram a ser até contemporâneos
com outros como os Australopithecus africanus, Australopithecus
boisei e o Homo habilis, por
volta de 3 milhões de anos. Contudo, as
duas primeiras espécies não tiveram sequência, sabe-se lá a razão, somente a
última citada, o Homo habilis teve
essa continuidade. Da mesma forma ocorreu há 200 mil anos atrás com os Homo sapiens neanderthalensis e o Homo sapiens[10]. A existência de uma
espécie não substituiu necessariamente a outra, o que se sabe é que os neanderthalensis
simplesmente deixaram de existir e não se sabe o motivo com mais detalhes,
conforme diz Claudio da Cunha:
“Entre aproximadamente 200 e 27 mil
anos são encontrados fósseis de duas subespécies humanas principais: o Homo sapiens neanderthalesis (homem de
Neanderthal) que migrou para a Europa e o Homo
sapiens sapiens (homem moderno ou Cro-Magnon) que permaneceu na África.
Ambos viviam na mesma época em locais diferentes durante a última glaciação.
Portanto, o homem de Neanderthal não é um ancestral do homem moderno,
mas apenas um “primo que morava longe”. Os Neanderthais enfrentaram os rigores
do frio e se extinguiram; os homens modernos enfrentaram os rigores da seca,
quase se extinguiram, mas conseguiram sobreviver a partir de pequenas populações.” (Cunha, 2011, p. 225-226).
Ocorre
que algumas espécies da nossa linhagem se adaptaram as condições adversas da
vida e avançaram de seus 3 milhões de anos para 1 milhão de anos até 200, 100
mil anos atrás. Considerando essas adaptações como algo que faz parte dos
planos da criação, então podemos compreender alguns incômodos que as pessoas de
fé venham a sentir. Tal desconforto para com a forma de agir do Criador não é
novidade, em diversas situações esse relacionamento foi discutido e posto a
conhecer da parte do Criador para sua criação, conforme podemos dividir nos
versos bíblicos abaixo:
“Não poderei eu fazer de vós como fez
este oleiro, ó casa de Israel? — diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do
oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” (Livro do profeta Jeremias 18: 6)
“Quem és tu, ó homem, para discutires
com Deus? Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste
assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um
vaso para honra e outro, para desonra?”
(Carta aos Romanos 9: 20-21)
Cada
etapa da formação do universo, das galáxias, do nosso sistema solar, dos
planetas e do planeta Terra especificamente são concepções atualmente bem fundamentadas
e que dificilmente surgirá uma revisão por conta de uma perspectiva totalmente
nova com base em informações futuras do tipo que venham contrariar o que hoje
sabemos.
Diante
disso a bela reflexão teológica diz que eu e você fomos criados do pó da terra,
conforme Gênesis 2: 7 relata: “Então, formou o
Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida,
e o homem passou a ser alma vivente.”, isso que dizer que de alguma
forma há uma conexão entre a humanidade e toda a criação, porque realmente existe
um sentido profundo nessa informação, já que nós fomos, verdadeiramente, criados
a partir do pó das estrelas, ou seja, as nossas origens estão na poeira estrelar.
Portanto,
o que foi exposto aqui tem como objetivo trazer ao conhecimento de um público
ainda maior o ponto de vista da criação a partir da Evolução Teísta “TE”. Um ponto de vista que respeita e se aproxima
das pesquisas cientificas sem medo ou preconceito, pelo contrário, o
conhecimento científico é incentivado, pois por meio dele muito mais se poderá
conhecer, porque não se vê incompatibilidade entre fé e ciência, ciência e fé.
Assim, a religião pode ficar mais científica, ao passo que a ciência, por que
não, pode ser mais religiosa, não num sentido mítico, mas voltando o seu olhar
para os relatos religiosos, investigando e buscando o que há de verdade em cada
um deles. Para mim, é isso o que deveria ocorrer mais e mais vezes neste século
XXI.
Referencias
Bibliográficas
Fontes primárias
ALMEIDA, João Ferreira de. A Bíblia Sagrada. Revista e atualizada
no Brasil. 2ª edição, Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1996.
AVERSI-FERREIRA,
Tales Alexandre. Biologia: celular e
molecular. 2ª edição. Campinas: Editora Átomo, 2013.
COLLINS,
Francis S. A Linguagem de Deus. Um
cientista apresenta evidências de que Ele existe. 4ª edição, São Paulo: Editora
Gente, 2007.
CUNHA, Claudio da. Genética e Evolução Humana. Campinas:
Editora Átomo, 2011.
PIDOUX, G. In: ALLMEN, Jean-Jacques Von. Vocabulário Bíblico. Tradução de Alfonso
Zimmermann. São Paulo: ASTE, 2001, p. 99-103.
GOULD, Stephen Jay. Vida Maravilhosa. O acaso na evolução e a natureza da história. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990.
PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 25ª edição.
São Paulo: Contexto, 2012.
Fontes secundárias
CALVINO, João. A verdadeira vida cristã. Tradução: Daniel Costa. São Paulo: Novo
Século, 2000.
KIDNER, Derek. Gênesis, introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida
Nova, 1979.
VIGOTSKI, L.S. Manuscrito de 1929. Educação & Sociedade, N. 71, Campinas, Jul.
2000.
Sites visitados
http://pararaioo.blogspot.com.br/2009/04/passadopresentefuturo.html
(acesso em 02/04/2014)
http://www.mundoeducacao.com/biologia/arqueobacterias.htm
(acesso em 03/04/2014)
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302000000200002
(acessado em 02/04/2014)
[1]
CALVINO, João. A verdadeira vida cristã.
Tradução: Daniel Costa. São Paulo: Novo Século, 2000. p. 8-9.
[2]
“[...] a evolução ou modificação através do tempo ocorre em infinitas
ramificações, mantendo as linhagens mais aptas para sobreviver e deixar
descendentes. Humanos são geneticamente mais próximos dos grandes macacos
antropoides (gorilas, chimpanzés) e mais distantes, sucessivamente, de macacos
com cauda, lêmores, cães, jacarés, insetos, árvores, cogumelos, algas e outros
seres vivos que também estão ocupando algum lugar na árvore da vida.” Claudio
da Cunha. Genética e Evolução Humana.
p. 193.
[3]
O teórico Vigotski diz que o que
nos diferencia dos animais são nossas Funções
Psicológicas Superiores, ou Processos
Mentais. Isto é, capacidade de raciocínio e de transmitir o conhecimento ao
outro, seja por instrumento, signo, linguagem, etc. Para tanto, tem como
auxílio a memória, a organização de informações e a capacidade de
atenção/concentração. Lev. S. Vigotski.
Manuscrito de 1929.
[4] PIDOUX, G. In: ALLMEN, Jean-Jacques Von. Vocabulário
Bíblico. Tradução de Alfonso Zimmermann. São Paulo: ASTE, 2001, p. 99-103.
[5]
“Acredita-se que a vida, dentro das
condições da Terra, possa existir em 1 bilhão de planetas, somente na Via
Láctea, e que, no Universo, há 10/17 avos planetas com condições semelhantes,
ou seja, com a vida sendo constituída por C, H. O, N, e H2O líquida.” In: AVERSI-FERREIRA, Tales Alexandre.
Biologia: celular e molecular. 2ª edição. Campinas: Editora Átomo, 2013. p.257.
[6]
Bactéria de origem muito antiga
que vive em meios hostis à maior parte dos outros organismos.
http://www.mundoeducacao.com/biologia/arqueobacterias.htm (acessado em 03/04/2014)
[7]
GOULD, Stephen Jay. Vida Maravilhosa. O acaso na evolução e a natureza da história. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990.
[8]
“Desenhos representando erroneamente a
evolução são utilizados mundialmente para as mais diversas finalidades. Nesse
tipo de representação a ideia central é a progressão linear e direta entre algo
‘menos evoluído’ para algo ‘mais evoluído’, um conceito que não encontra
respaldo científico.” Claudio da Cunha. Genética
e Evolução Humana. p. 193.
[9]
Em seu livro Collins apresenta uma tabela atualiza da árvore da vida,
demonstrando a extensão das ramificações que representa o grau de diferença
entre as espécies por meio da comparação das sequências de DNA. Francis S.
Collins. A linguagem de Deus. p. 135.
[10]
PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações.
25ª edição. São Paulo: Contexto, 2012. p.19-29.


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