sexta-feira, 22 de maio de 2015

RELIGIÃO


Conceito do termo
Religião é um termo muito antigo e retoma há milênios. A etimologia do terno não é certa, uma das compreensões liga ao termo latino religio que deriva de religere, que por sua vez remonta a atitude de estar atento ou em observação. 
Outra concepção do termo é o religare, que descreve a busca do ser humano em conectar-se novamente com o seu Criador. Este ultimo, ganhou mais prestígio nos meios teológicos por conta de ser adotado por Santo Agostinho, dai o conceito sobre religião ser entendido como aquilo que religa o seu humano ao sagrado[1].  
O entendimento sobre religião vai desde a consciência do ser humano sobre a existência do sagrado e assim cumprir suas exigências até uma prática existente a partir da fé.
De uma forma geral as religiões têm se destacado por meio de implicações de conduta moral e reflexão altamente ética, o que acaba envolvendo leis, comportamentos virtuosos, ações de solidariedade e relacionamentos com base no amor; e, embora a moral caracterizar apenas um dos aspectos da religião, ela é muito mais valorizada na forma de legalismo e moralismo, isso em detrimento de seus muitos outros aspectos.
Contudo, religião está mais próxima a nós do que imaginamos, desde que estabeleçamos a ordem correta de sua atuação em nossas vidas. Religião não se enquadra em construções doutrinárias com definições teológicas, antes religião é vida e experiência comum.

Religião e construção
            Ainda antes de adentrarmos mais profundamente no assunto sobre o conceito religião é preciso primeiro dizer o que não é religião. O termo religião não é, e não se enquadra num conjunto de formulas doutrinárias o qual se abrem dois caminhos, ou seja, o do crer ou o do não crer, restando assim apenas a possibilidade da fé para o indivíduo.
Na verdade, a religião passa mais distante do que imaginamos de nossas construções doutrinárias de cunho confessional a qual se leva o individuo a acreditar ou não ser a verdade. Daí, ter uma religião, ou ser religioso está longe de ser uma questão puramente de ter fé em algo. Por isso, certo é que religião não é uma formulação confessional que gera um sistema doutrinário o qual se resta acreditar ou não. Então, dito isso, fica a pergunta: o que seria então religião?
Diferentemente do que somos levados a acreditar, a religião trilha pelo caminho da história. Razão então que a questão da religião trata-se de uma construção gradativa a partir das experiências humanas no curso de uma história. A história é constituída por fatos de um passado que geras experiências pessoais ou coletivas que posteriormente produz o seu relato e a interpretação desse relato. Toda essa experiência passa a ser, ao longo dos tempos, base importante para a organização de uma sociedade. A parir daí é que toda essa história também permite a produzir dados organizados para se reunir por meio de métodos científicos, isso, obviamente, contando com as mais diversas fontes.
A partir dessa base pode-se dizer que a religião é aquela que reúne em si todo esse processo já que ela passa necessariamente pela experiência real de um grupo de pessoas. Após a vivência das experiências em comum passa-se ao relato dessa vivência e na sequência somasse as novas experiências das gerações seguintes, contudo para as anteriores inicia-se um processo de interpretação por entender ser importante para o contexto vigente. O que liga tudo isso é a constante relação com o sagrado, com o divino.

A Religião de Israel
Ao falar da religião judaica há que primeiramente considerar que ela é o fruto da história de um povo. E que, essa história foi construída por longos anos, fazendo uso da tradição oral e assim transmitida de geração a geração. Sobre isso diz John Bright:

É fato universalmente aceito que muito da literatura do mundo antigo – narrações épicas, sabedoria popular, material legal e litúrgico – foi transmitido oralmente. [...] Mesmo quando se dá ao material a forma escrita, não se dispensa necessariamente a tradição oral, mas ela continua a viver lado a lado com a tradição escrita, sendo esta um controle para aquela, mas nunca substituindo[2].

 Contudo, é fato que a religião do povo israelita tem o seu começo no deserto, para ser exato, na península do Sinai. Mesmo que a localização exata no Sinai seja geograficamente incerta, em se tratando de fontes extra bíblicas, não há razões para duvidar que foi a partir dali que Israel prestou seu primeiro culto a Yahweh , recebendo a lei e se constituindo como o povo do Israel.               
Por isso, as origens da religião de Israel estão no deserto, lá se encontram as raízes históricas da organização religiosa deste povo. Mas, o que quero dizer com isso? Que dizer que a religião envolve necessariamente a experiência a qual viveu esse povo e foi ali no deserto que essa experiência foi forte, marcante o suficiente para ser transmitida de geração em geração. Todos deveriam lembrar que seus pais, seus antepassados, sobreviveram ao deserto, mas também deveriam lembram o por quê foram parar lá, bem como a saída para se estabelecer numa terra melhor. Essa é a história de Israel, essa é a religião de Israel e ela é força que move toda e qualquer geração, pois os juízos ali aplicados são universais apoiados em acontecimentos históricos[3].
O povo de Israel procurou transmitir sua marcante experiência histórica às gerações posteriores. Essa experiência foi fundamentada pelo apoio inequívoco de um Deus Criador, Yahweh , estabelecendo assim um relacionamento que ao longo da história se demonstrou ser, hora forte, hora fraco, dependendo do momento histórico o qual a aliança do Sinai era lembrada.  
A sistematização da religião de Israel se deu na seguinte forma: primeiramente toda aquela experiência do Sinai foi guardada na memória coletiva via tradição oral, posteriormente e gradativamente passou a ser escrita e, seguindo uma sequência natural, passou-se a constituir uma doutrina fundamentada por um monoteísmo ético, e, só por ultimo, adquirindo seu aspecto confessional.

O Cristianismo
O monoteísmo ético é um legado que a religião judaica dá ao cristianismo[4]. Contudo, é importante saber que entre o surgimento do cristianismo e a formulação da doutrina cristã estão aí alguns séculos que os separam.
Semelhantemente ao judaísmo, o cristianismo é um conjunto de fatos históricos oriundo da experiência de um povo, ou melhor, de uma comunidade. A comunidade em questão, ainda no primeiro século, é posteriormente chamada de cristã, isso porque sua história está ligada aos ensinos e as práticas deixadas por Cristo, o seu mestre.
Essas pessoas viveram por experiência uma série de acontecimentos em suas vidas que geraram um impacto sem igual na sua sociedade. Então, a comunidade dos primeiros cristãos aplicou em seu tempo uma nova visão de mundo[5], e isso a partir das palavras e dos exemplos deixados por Jesus de Nazaré, bem como da retransmissão e da repetição de seus atos pelos seus discípulos. Daí, os primeiros cristãos mudaram seus valores, suas relações com o outro e a própria relação com o Criador.  E isso foi impactante. Contudo, para nós neste momento é importante saber que foi somente depois de uma série de experiências da própria comunidade cristã e da retransmissão oral é que veio a necessidade de também passar para a escrita.
Por uma gama de fatores a escrita passa a ter um papel importante na comunidade e segue uma sequência já natural da formulação doutrinal. O cristianismo deve ser entendido a partir desta importante sequencia. Por fim, após todo esse caminho é que vem a construção confessional. Ai está, a religião de Israel trata-se de um testemunho de uma experiência histórica.

A Religião Cristã
A religião cristã não foge dos aspectos ditos anteriormente a Israel. Ela é exatamente a história de pessoas que viveram e também dividiram experiências de vida ligadas a um relacionamento com o Cristo. A força dessa experiência se transforma numa dimensão gigantesca porque o Cristo, chamado Jesus era o próprio criador do universo encarnada para se relacionar com a sua criação.
Essas pessoas conviveram com Cristo Jesus, ouviram seus ensinamentos, caminharam com ele, falaram com ele, conheceram uma dinâmica de vida diferente e ouviram dele que eles poderiam retransmitir tudo isso na sua “ausência”. Fato é que tal experiência deixou um legado igualmente grande, levou a formação de uma comunidade que posteriormente veio a impactar a sua sociedade.  E se não bastasse a ação em seu tempo, essas experiências também foram retransmitidas as gerações seguintes que, por sua vez, tiveram as suas próprias experiências, trilhando assim o caminho da história da fé cristã.
Caso não consideremos esses acontecimentos, caso não penetremos no que ocorreu na dinâmica da vida e da história dos primeiros cristãos, não haveremos de compreender o próprio cristianismo, consequentemente não saberemos definir o que é a religião cristã, consequentemente o próprio conceito de religião.
            As construções doutrinárias e as formulações confessionais são posteriores aos eventos ditos acima, por essa razão, é um equivoco chamar de religião um produto institucional como as confissões de fé e a sistematização de suas doutrinas. Ou seja, o equivoco está em entender como religião o produto final de uma experiência vivida muito antes.
            Confissões de fé, formulações doutrinárias foram construídas a partir das interpretações das Escrituras, que por sua vez, foram escritas a fim de retransmitir as experiências vividas por pessoas reais em seu tempo. Contudo, essas interpretações podem seguir os mais diversos caminhos e assim possuir pontos de vista diferentes, como hoje observamos. O produto final: Instituição, confissão de fé e doutrinas não podem se dar o nome de religião, como alguns costumam dizer e chamar de sua religião.
Para saber o que é religião há que caminhar no sentido contrário, há que se fazer o retorno, conhecer a história a partir das experiências reais, vividas por pessoas reais, num período real, mas que se estende até os dias de hoje; posteriormente a isso você deve se identificar com essa história a ponto de fazer da sua vida uma extensão dela, ai sim, você poderá se considerar um religioso. Caso contrário o termo não se aplica.



REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição. São Paulo: Paulus, 2003.

CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos. Tradução de Israel Belo de Azevedo, Valdemar Kroker. 2ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2008.

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 25ª edição. São Paulo: Contexto, 2012.

ROOS, Jonas. In: Dicionário Brasileiro de Teologia. Fernando Bortolleto Filho (org.). São Paulo: ASTE, 2008.
  




[1] ROOS, Jonas. In: Dicionário Brasileiro de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008. p. 859-861.
[2] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição. São Paulo: Paulus, 2003. p. 98.
[3] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição. São Paulo: Paulus, 2003. p. 161.
[4] “O monoteísmo ético que surge e se desenvolve entre os hebreus é o ponto de partida das mais importantes religiões ocidentais.” PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 25ª edição. São Paulo: Contexto, 2012. p.109
[5] Homothumedon – de comum acordo, unânimes, juntos. 

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