Conceito
do termo
Religião
é um termo muito antigo e retoma há milênios. A etimologia do terno não é
certa, uma das compreensões liga ao termo latino religio que deriva de religere, que por sua vez remonta a atitude de
estar atento ou em observação.
Outra
concepção do termo é o religare, que descreve a busca do ser humano
em conectar-se novamente com o seu Criador. Este ultimo, ganhou mais prestígio
nos meios teológicos por conta de ser adotado por Santo Agostinho, dai o
conceito sobre religião ser entendido como aquilo que religa o seu humano ao
sagrado[1].
O
entendimento sobre religião vai desde a consciência do ser humano sobre a
existência do sagrado e assim cumprir suas exigências até uma prática existente
a partir da fé.
De
uma forma geral as religiões têm se destacado por meio de implicações de conduta
moral e reflexão altamente ética, o que acaba envolvendo leis, comportamentos virtuosos,
ações de solidariedade e relacionamentos com base no amor; e, embora a moral caracterizar
apenas um dos aspectos da religião, ela é muito mais valorizada na forma de
legalismo e moralismo, isso em detrimento de seus muitos outros aspectos.
Contudo,
religião está mais próxima a nós do que imaginamos, desde que estabeleçamos a
ordem correta de sua atuação em nossas vidas. Religião não se enquadra em
construções doutrinárias com definições teológicas, antes religião é vida e
experiência comum.
Religião
e construção
Ainda antes de adentrarmos mais
profundamente no assunto sobre o conceito religião é preciso primeiro dizer o
que não é religião. O termo religião não é, e não se enquadra num conjunto de
formulas doutrinárias o qual se abrem dois caminhos, ou seja, o do crer ou o do
não crer, restando assim apenas a possibilidade da fé para o indivíduo.
Na
verdade, a religião passa mais distante do que imaginamos de nossas construções
doutrinárias de cunho confessional a qual se leva o individuo a acreditar ou
não ser a verdade. Daí, ter uma religião, ou ser religioso está longe de ser
uma questão puramente de ter fé em algo. Por isso, certo é que religião não é uma
formulação confessional que gera um sistema doutrinário o qual se resta
acreditar ou não. Então, dito isso, fica a pergunta: o que seria então religião?
Diferentemente
do que somos levados a acreditar, a religião trilha pelo caminho da história. Razão
então que a questão da religião trata-se de uma construção gradativa a partir
das experiências humanas no curso de uma história. A história é constituída por
fatos de um passado que geras experiências pessoais ou coletivas que
posteriormente produz o seu relato e a interpretação desse relato. Toda essa
experiência passa a ser, ao longo dos tempos, base importante para a
organização de uma sociedade. A parir daí é que toda essa história também
permite a produzir dados organizados para se reunir por meio de métodos
científicos, isso, obviamente, contando com as mais diversas fontes.
A
partir dessa base pode-se dizer que a religião é aquela que reúne em si todo
esse processo já que ela passa necessariamente pela experiência real de um
grupo de pessoas. Após a vivência das experiências em comum passa-se ao relato
dessa vivência e na sequência somasse as novas experiências das gerações
seguintes, contudo para as anteriores inicia-se um processo de interpretação
por entender ser importante para o contexto vigente. O que liga tudo isso é a
constante relação com o sagrado, com o divino.
A
Religião de Israel
Ao
falar da religião judaica há que primeiramente considerar que ela é o fruto da
história de um povo. E que, essa história foi construída por longos anos, fazendo
uso da tradição oral e assim transmitida de geração a geração. Sobre isso diz
John Bright:
É fato universalmente aceito que muito
da literatura do mundo antigo – narrações épicas, sabedoria popular, material
legal e litúrgico – foi transmitido oralmente. [...] Mesmo quando se dá ao
material a forma escrita, não se dispensa necessariamente a tradição oral, mas
ela continua a viver lado a lado com a tradição escrita, sendo esta um controle
para aquela, mas nunca substituindo[2].
Contudo, é fato que a religião do povo
israelita tem o seu começo no deserto, para ser exato, na península do Sinai.
Mesmo que a localização exata no Sinai seja geograficamente incerta, em se
tratando de fontes extra bíblicas, não há razões para duvidar que foi a partir
dali que Israel prestou seu primeiro culto a Yahweh , recebendo a lei e se constituindo como o povo do Israel.
Por
isso, as origens da religião de Israel estão no deserto, lá se encontram as
raízes históricas da organização religiosa deste povo. Mas, o que quero dizer
com isso? Que dizer que a religião envolve necessariamente a experiência a qual
viveu esse povo e foi ali no deserto que essa experiência foi forte, marcante o
suficiente para ser transmitida de geração em geração. Todos deveriam lembrar
que seus pais, seus antepassados, sobreviveram ao deserto, mas também deveriam
lembram o por quê foram parar lá, bem como a saída para se estabelecer numa
terra melhor. Essa é a história de Israel, essa é a religião de Israel e ela é
força que move toda e qualquer geração, pois os juízos ali aplicados são
universais apoiados em acontecimentos históricos[3].
O
povo de Israel procurou transmitir sua marcante experiência histórica às
gerações posteriores. Essa experiência foi fundamentada pelo apoio inequívoco
de um Deus Criador, Yahweh ,
estabelecendo assim um relacionamento que ao longo da história se demonstrou
ser, hora forte, hora fraco, dependendo do momento histórico o qual a aliança
do Sinai era lembrada.
A
sistematização da religião de Israel se deu na seguinte forma: primeiramente toda
aquela experiência do Sinai foi guardada na memória coletiva via tradição oral,
posteriormente e gradativamente passou a ser escrita e, seguindo uma sequência
natural, passou-se a constituir uma doutrina fundamentada por um monoteísmo
ético, e, só por ultimo, adquirindo seu aspecto confessional.
O Cristianismo
O
monoteísmo ético é um legado que a religião judaica dá ao cristianismo[4]. Contudo, é importante
saber que entre o surgimento do cristianismo e a formulação da doutrina cristã estão
aí alguns séculos que os separam.
Semelhantemente
ao judaísmo, o cristianismo é um conjunto de fatos históricos oriundo da
experiência de um povo, ou melhor, de uma comunidade. A comunidade em questão,
ainda no primeiro século, é posteriormente chamada de cristã, isso porque sua
história está ligada aos ensinos e as práticas deixadas por Cristo, o seu mestre.
Essas
pessoas viveram por experiência uma série de acontecimentos em suas vidas que
geraram um impacto sem igual na sua sociedade. Então, a comunidade dos
primeiros cristãos aplicou em seu tempo uma nova visão de mundo[5], e isso a partir das
palavras e dos exemplos deixados por Jesus de Nazaré, bem como da retransmissão
e da repetição de seus atos pelos seus discípulos. Daí, os primeiros cristãos mudaram
seus valores, suas relações com o outro e a própria relação com o Criador. E isso foi impactante. Contudo, para nós
neste momento é importante saber que foi somente depois de uma série de experiências
da própria comunidade cristã e da retransmissão oral é que veio a necessidade
de também passar para a escrita.
Por
uma gama de fatores a escrita passa a ter um papel importante na comunidade e segue
uma sequência já natural da formulação doutrinal. O cristianismo deve ser
entendido a partir desta importante sequencia. Por fim, após todo esse caminho
é que vem a construção confessional. Ai está, a religião de Israel trata-se de
um testemunho de uma experiência histórica.
A Religião Cristã
A
religião cristã não foge dos aspectos ditos anteriormente a Israel. Ela é
exatamente a história de pessoas que viveram e também dividiram experiências de
vida ligadas a um relacionamento com o Cristo. A força dessa experiência se
transforma numa dimensão gigantesca porque o Cristo, chamado Jesus era o
próprio criador do universo encarnada para se relacionar com a sua criação.
Essas
pessoas conviveram com Cristo Jesus, ouviram seus ensinamentos, caminharam com
ele, falaram com ele, conheceram uma dinâmica de vida diferente e ouviram dele
que eles poderiam retransmitir tudo isso na sua “ausência”. Fato é que tal experiência
deixou um legado igualmente grande, levou a formação de uma comunidade que
posteriormente veio a impactar a sua sociedade.
E se não bastasse a ação em seu tempo, essas experiências também foram
retransmitidas as gerações seguintes que, por sua vez, tiveram as suas próprias
experiências, trilhando assim o caminho da história da fé cristã.
Caso
não consideremos esses acontecimentos, caso não penetremos no que ocorreu na dinâmica
da vida e da história dos primeiros cristãos, não haveremos de compreender o
próprio cristianismo, consequentemente não saberemos definir o que é a religião
cristã, consequentemente o próprio conceito de religião.
As construções doutrinárias e as
formulações confessionais são posteriores aos eventos ditos acima, por essa
razão, é um equivoco chamar de religião um produto institucional como as
confissões de fé e a sistematização de suas doutrinas. Ou seja, o equivoco está
em entender como religião o produto final de uma experiência vivida muito
antes.
Confissões de fé, formulações
doutrinárias foram construídas a partir das interpretações das Escrituras, que
por sua vez, foram escritas a fim de retransmitir as experiências vividas por
pessoas reais em seu tempo. Contudo, essas interpretações podem seguir os mais
diversos caminhos e assim possuir pontos de vista diferentes, como hoje observamos.
O produto final: Instituição, confissão de fé e doutrinas não podem se dar o
nome de religião, como alguns costumam dizer e chamar de sua religião.
Para
saber o que é religião há que caminhar no sentido contrário, há que se fazer o
retorno, conhecer a história a partir das experiências reais, vividas por
pessoas reais, num período real, mas que se estende até os dias de hoje;
posteriormente a isso você deve se identificar com essa história a ponto de
fazer da sua vida uma extensão dela, ai sim, você poderá se considerar um
religioso. Caso contrário o termo não se aplica.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição. São Paulo: Paulus, 2003.
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos. Tradução de Israel Belo de
Azevedo, Valdemar Kroker. 2ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2008.
PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 25ª edição. São Paulo: Contexto, 2012.
ROOS, Jonas. In: Dicionário
Brasileiro de Teologia. Fernando Bortolleto Filho (org.). São Paulo: ASTE,
2008.
[1] ROOS, Jonas. In: Dicionário Brasileiro
de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008. p. 859-861.
[2]
BRIGHT, John. História de Israel. 7ª
edição. São Paulo: Paulus, 2003. p. 98.
[3]
BRIGHT, John. História de Israel. 7ª
edição. São Paulo: Paulus, 2003. p. 161.
[4]
“O monoteísmo ético que surge e se desenvolve entre os hebreus é o ponto de
partida das mais importantes religiões ocidentais.” PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 25ª edição.
São Paulo: Contexto, 2012. p.109
[5] Homothumedon – de comum acordo,
unânimes, juntos.
0 comentários:
Postar um comentário